A BIBLIOGRAFIA DO CONCELHO DE LOULÉ, por João Sabóia

 

CEA | TRIBUTO A LUÍS GUERREIRO
LIVRO: A MEMÓRIA E O AMOR
Luís Manuel Mendes Guerreiro, bibliófilo e homem de Cultura, reuniu centenas de livros e documentos ao longo da vida, constituindo uma colecção que se pode encontrar em Querença, aldeia natal do «engenheiro das letras», na expressão de Joaquim Magalhães. Este fundo, o Centro de Estudos Algarvios (CEA), está alojado na FMVG, instituição a que presidiu da primeira hora em que foi criada até à última da sua vida.
Se fosse vivo, Luís Guerreiro faria 60 anos a 4 de Setembro. Três anos após o seu falecimento (Agosto de 2017), a FMVG celebra o seu legado convidando várias personalidades ligadas à Cultura para elaborar um breve ensaio a partir de um livro, símbolo de uma das paixões maiores de Luís Guerreiro. Os textos serão publicados semanalmente, ao longo de Agosto e Setembro, no site da Fundação e partilhados no Facebook e newsletter FMVG. Mais tarde, será editada uma brochura com todos os artigos reunidos.
Esta é uma iniciativa que pretende valorizar o CEA e homenagear o seu fundador, com destaque para algumas das obras que compõem este acervo bibliográfico e documental.

 

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Sabóia, João; Guerreiro, Luís - Bibliografia do Concelho de Loulé, Loulé: Secretariado do I Congresso do Concelho de Loulé / Casa da Cultura de Loulé, 1991

 

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A BIBLIOGRAFIA DO CONCELHO DE LOULÉ: MEMÓRIAS 

Por JOÃO SABÓIA

Em 1991 a Casa da Cultura de Loulé propunha a mim e ao Luís Guerreiro a tarefa de construirmos uma bibliografia a distribuir durante o I Congresso do Concelho de Loulé, 5 a 7 de abril desse ano.
O ano de 1991 foi estimulante e interessante pois correspondeu a um período muito criativo do ponto de vista das ideias e das ações no que respeita às memórias, sejam patrimoniais, ou culturais. Procurava-se, deste modo, através do conhecimento a preservação dinâmica das mesmas e ao mesmo tempo interessar as populações por conhecer essas memórias, procurando-se, assim, contribuir para uma cidadania mais informada, responsável e participativa.
Também encontramos esta atmosfera nas “Conclusões” do I Congresso - “Alertar, porque sem conhecimento do que existe não é possível preservar”.
Na mesma corrente uma colaboração entre o “Almargem” e a Câmara Municipal de Loulé. Divisão de Património Histórico, em março de 1991, enviava um convite às associações, Juntas de Freguesias, escolas e individualidades para uma reunião em abril a fim de se tratar da constituição de equipas de estudo no âmbito da história local. Os trabalhos produzidos seriam publicados na revista cultural a editar pelo Arquivo Histórico Municipal de Loulé, o 1.º número da “al´-ulyã” foi editado em 1992.
Foi neste espírito que surgiu o convite para a elaboração de uma bibliografia do concelho, tal como a aceitação do mesmo.
O trabalho iniciou-se com a definição do alcance e método, tendo em atenção o reduzido tempo que nos fora atribuído, assim começámos a reunir os textos já publicados e os que se encontravam ainda manuscritos ou dactilografados que tinham Loulé por tema. Ainda pensámos incluir os jornais, as enciclopédias, e alguma documentação do Arquivo Histórico, no entanto o tempo disponível era insuficiente para tanta ambição. Sobre os documentos do Arquivo foi possível através da minha comunicação “Arquivo Histórico Municipal de Loulé: uma instituição de defesa do património concelhio”, Atas do I Congresso, 1991, p. 17-24, dar uma ideia geral da documentação. No ano seguinte, 1992, seria publicado o “Inventário do Arquivo Histórico Municipal de Loulé”, suplemento do n.º 1 da “al´-ulyã”.
As memórias que tenho de Luís Guerreiro durante este projeto são gratificantes. Numa época em que o Luís começava, a tempo inteiro, a dedicar-se aos temas da cultura e da história, o que reparei imediatamente foi na sua prodigiosa memória, útil na pesquisa de alguma bibliografia mais específica e pouco conhecida. Também verifiquei o enfoque, quase uma obsessão, que tinha pela história, a literatura e o património do concelho de Loulé, aliás, praticamente sobre tudo o que se relacionava com Loulé. Igualmente nas conversas que mantivemos soube da sua vertente de colecionador de publicações, artigos, textos e outros objetos que tinham Loulé por assunto, o que acabou por se tornar num importante repositório para a história e cultura louletana.
Por último, esta colaboração também evidenciou um traço da personalidade do Luís que pude ao longo dos anos testemunhar e que registei no texto “Recordando o Luís Guerreiro”, 2017.
Humanamente, fui aprendendo a reconhecer no Luís o exemplo de alguém, raro, que procurava sempre manter a amizade e criar um bom ambiente à sua volta, em vez de se envolver em questiúnculas vazias que de uma forma, ou de outra, acabam por nos envenenar. Talvez, esta sua maneira de estar na vida seja uma das maiores heranças que ele nos deixa.  
                                                                                                                                                                                                                                                                                     Faro, 23 de julho de 2020

 

JOÃO SABÓIA

Nascido em 1956 em Évora, licenciado em História e especializado em Ciências Documentais (Arquivo), pela UL. Foi Chefe de Divisão do Património Histórico (1990-1994) e de Bibliotecas e Arquivo Municipal, Loulé (2006-2008); Diretor do Arquivo Distrital de Faro (1994-2004, 2008-2013). Entre outras atividades fez parte da direção do Curso de Especialização em Ciências Documentais, Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve (2003–2005). Cientificamente integrou diversos grupos de trabalho tanto em Espanha como em Portugal, exemplo: La imagen de los extranjeros y enemigos durante los conflictos bélicos del siglo XVIII en España y América, apoio do Ministerio de Educación y Ciência de Espanha, HUM2007-60178/HIST. 2007. Para além de formador, também apresentou comunicações em seminários e congressos nacionais e internacionais e tem diversa obra publicada em Portugal e no estrangeiro.