CARNAVAL: HISTÓRIA E IDENTIDADE, de Carlos Guardado da Silva

CEA | TRIBUTO A LUÍS GUERREIRO
LIVRO: A MEMÓRIA E O AMOR
Luís Manuel Mendes Guerreiro, bibliófilo e homem de Cultura, reuniu centenas de livros e documentos ao longo da vida, constituindo uma colecção que se pode encontrar em Querença, aldeia natal do «engenheiro das letras», na expressão de Joaquim Magalhães. Este fundo, o Centro de Estudos Algarvios (CEA), está alojado na FMVG, instituição a que presidiu da primeira hora em que foi criada até à última da sua vida.
Se fosse vivo, Luís Guerreiro faria 60 anos a 4 de Setembro. Três anos após o seu falecimento (Agosto de 2017), a FMVG celebra o seu legado convidando várias personalidades ligadas à Cultura para elaborar um breve ensaio a partir de um livro, símbolo de uma das paixões maiores de Luís Guerreiro. Os textos serão publicados semanalmente, ao longo de Agosto e Setembro, no site da Fundação e partilhados no Facebook e newsletter FMVG. Mais tarde, será editada uma brochura com todos os artigos reunidos.
Esta é uma iniciativa que pretende valorizar o CEA e homenagear o seu fundador, com destaque para algumas das obras que compõem este acervo bibliográfico e documental.
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Carro alegórico de Querença (aldeia natal de Luís Guerreiro) a desfilar na Av. José da Costa Mealha, Loulé, no Carnaval de 1954.
Concebido e produzido em Querença com forte apoio do Padre João de Jesus Martins e das professoras D. Amélia e D. Leopoldina.
 
Da esq. para a dir.:
Maria da Ponte Guerreiro (Jacinta), Amarília Rita Martins (Marília), Maria Fernanda Correia da Ponte (Fernanda),
Maria de Lurdes da Silva Ribeiro (Lurdes do Pirinéu) e Maria José Guerreiro dos Santos (Zézinha do Altinho, eleita Dama de Honor).
Do carro «As brasas de Querença» eram lançados pequenos sacos com serradura com a seguinte inscrição:
«
Para nós é uma ofensa
Dizer-se que há frio em casa,
Lá no Povo de Querença,
Cada moça é uma BRASA!
»
 
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LUÍS GUERREIRO, UM ROSTO DO CARNAVAL DE LOULÉ

Por CARLOS GUARDADO DA SILVA

Um Apaixonado pelas letras, um fazedor de cultura, um promotor da Região do Algarve (de que a Fundação Manuel Viegas Guerreiro é um meio), um engenheiro do Carnaval de Loulé, como o conhecemos hoje, Luís Guerreiro era tudo isto e, porém, tudo isto é tão pouco para definir o Homem, que conhecemos insuficientemente. Porque insuficientemente se conhece cada Homem, porque insuficientemente cada Homem se dá a conhecer, porque tamanha era a grandeza de Luís Guerreiro, porque o conhecemos apenas em 2015, dois anos antes da sua partida para onde vivem as estrelas e de onde lançam gargalhadas aos foliões do Carnaval.
Portugal, teve e tem, muitos Carnavais, com raízes semelhantes no entrudo rural, “civilizado” nas primeiras décadas do século XX, tornado uma festa cívica republicana, de substituição das festas religiosas, que evoluíram, mais tarde, em sentidos distintos. Porém, não são muitos os investigadores, que se dedicam a tempo inteiro, nacional e internacionalmente, ao tema do Carnaval, sendo exceção, em Portugal, António Pinelo Tiza, para a região de Trás os Montes, integrando-o nas festas cíclicas do Inverno Mágico, de que são exemplos, entre outros, os carnavais/entrudos de Lazarim, Podence e Vinhais.
Também não são muitos os carnavais portugueses que tenham sido objeto de um estudo, em forma de artigo ou monografia, de que são exempla, não querendo ser exaustivo, os carnavais ‘civilizados’ de Lisboa (1903), Loulé (1906), Loures, Ovar (1952), Porto (1905) e Torres Vedras (1908). Estes são alguns dos muitos carnavais, que são centenários ou quase, remontando a maior parte à década de 80 do século XIX, recriados, quando sobreviveram, na década de 80 do século XX, aproximando-se dos desfiles e das festas de rua, que conhecemos atualmente.
Outros carnavais estão, porém, por estudar: o carnaval de Sines (1926), os carnavais de Estarreja, Mealhada e Figueira da Foz, estes três de influência brasileira, e o Carnaval de Elvas, de influência espanhola. Outros ainda se podem juntar: Arcos de Valdevez, Coruche, Madeira, Nazaré, Olhão e…
Sendo um tema tão caro à folia e tão atrativo em termos de gentes, inclusive como produto turístico, era, como continua a ser, parco em investigação e, simultaneamente, do maior interesse o seu estudo. Assim se justifica(va) a organização de um encontro científico sobre a temática do Carnaval, perscrutando a identidade de cada um, mormente quando Torres Vedras projetava a abertura do Centro de Artes, com uma grande parte do projeto dedicado às Artes do Carnaval, com inauguração para breve, e o seu registo patrimonial.
Impunha-se realizar um evento, que reunisse especialistas de alguns carnavais nacionais, mas também internacionais, sobretudo, neste caso, dos inscritos (em número de oito) na lista da Unesco do Património Imaterial da Humanidade.
Loulé tinha então em curso um estudo aprofundado sobre o Carnaval, um estudo de que só é possível encontrar idêntica dimensão para Torres Vedras e os entrudos transmontanos. Um estudo que saiu nesse mesmo ano de 2015, intitulado Carnaval “civilizado” de Loulé: 1906-1976, de Luísa Martins. Luís Guerreiro conhecia o conteúdo do livro e este Carnaval, porque também investigava, e conhecia como ninguém o Carnaval após 1976, porque o organizava, porque o vivia, porque o sentia como ninguém. Convidámos ambos, tendo apenas sido possível, nessa altura, receber o Engenheiro Luís Guerreiro, o rosto do Carnaval de Loulé, como todos os Louletanos sabem, como todos os que estudam e se interessam pelo Carnaval, enquanto manifestação cultural, reconhecem. Conhecer o Carnaval de Loulé era, como é, particularmente importante para a Cultura, para o conhecimento do fenómeno do Carnaval, afinal, muito próximo, nas origens, bem como na sua evolução, do Carnaval de Torres Vedras.
Em Torres Vedras, Luís Guerreiro fez uma apresentação oral brilhante, muito bem estruturada e coerente, viva, sem um único apontamento escrito, recorrendo apenas à sua memória, bem como às experiências do carnaval por si visualizadas e vividas. Ele era o rosto do Carnaval de Loulé, do qual sem nos ter mostrado uma imagem, o Carnaval de Loulé passou todo ali. Uns meses depois, já doente, enviou-nos o seu artigo - “Carnaval civilizado de Loulé: da filantropia ao cartaz turístico”, que integra o livro Carnaval: história e Identidade, sob a nossa coordenação (Edições Colibri, Câmara Municipal de Torres Vedras e Instituto Alexandre Herculano da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2016), talvez o seu último texto publicado.
 

 

CARLOS GUARDADO DA SILVA

Doutor em História Medieval, pela Universidade de Lisboa, e Agregado em Ciência da Informação, pela Universidade de Coimbra. É Investigador do Centro de Estudos Clássicos e Professor Auxiliar com Agregação da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde dirige o mestrado em Ciências da Documentação e Informação.