FEBRES INFECCIOSAS, por Luísa Martins

CEA | TRIBUTO A LUÍS GUERREIRO
LIVRO: A MEMÓRIA E O AMOR
Luís Manuel Mendes Guerreiro, bibliófilo e homem de Cultura, reuniu centenas de livros e documentos ao longo da vida, constituindo uma colecção que se pode encontrar em Querença, aldeia natal do «engenheiro das letras», na expressão de Joaquim Magalhães. Este fundo, o Centro de Estudos Algarvios (CEA), está alojado na FMVG, instituição a que presidiu da primeira hora em que foi criada até à última da sua vida.
Se fosse vivo, Luís Guerreiro faria 60 anos a 4 de Setembro. Três anos após o seu falecimento (Agosto de 2017), a FMVG celebra o seu legado convidando várias personalidades ligadas à Cultura para elaborar um breve ensaio a partir de um livro, símbolo de uma das paixões maiores de Luís Guerreiro. Os textos serão publicados semanalmente, ao longo de Agosto e Setembro, no site da Fundação e partilhados no Facebook e newsletter FMVG. Mais tarde, será editada uma brochura com todos os artigos reunidos.
Esta é uma iniciativa que pretende valorizar o CEA e homenagear o seu fundador, com destaque para algumas das obras que compõem este acervo bibliográfico e documental.

 

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Brites, Geraldino – Febres infecciosas: notas sobre o Concelho de Loulé, Coimbra : Imprensa da Universidade, 1914. 

 

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UMA CURIOSIDADE SOBRE O TRABALHO DE GERALDINO BRITES, PELA MÃO DE LUÍS GUERREIRO

Por LUÍSA MARTINS

Há mais de 20 anos, falando com o meu saudoso amigo Pedro Encarnação, veio à colação o médico Geraldino Brites, que trabalhou em Loulé nos primeiros anos do século XX e que elaborou um relatório sobre o concelho de Loulé, publicado em 1914. Lembro-me que na altura procurámos um exemplar desse livro mas não o encontrámos. Na altura era complicado reunirmos condições para se ir a Lisboa procurar um título na Biblioteca Nacional. Recorremos à ajuda de pessoa conhecedora do património e da história do concelho de Loulé, que nos informou que o livro no período anterior ao 25 de Abril não teria “caído bem” junto das autoridades e da população porque não seria nada “simpático” para as gentes louletanas. E ainda, que não sabia se existiria algum exemplar do livro, que provavelmente acabara por não constituir um título a considerar para a história de Loulé, como eram os estudos de Ataíde Oliveira.
Os anos passaram, as pessoas partiram e outros olhares se foram encontrando. Um dia, em conversa com o Eng.º Luís Guerreiro, com quem trabalhei e colaborei, ouço-o falar de Geraldino Brites. Invadi-o de perguntas sobre o médico... e sobre o trabalho que desenvolvera em Loulé. E eis que o Luís Guerreiro sabia onde se encontrava um exemplar da obra. Debaixo do meu nariz. Mesmo no Centro de Documentação do então Arquivo Histórico e que “desencantara” num daqueles dias em que ali ficava horas a ver título a título.
Finalmente consegui ver, tocar e ler o exemplar. Ainda está acessível aos leitores no Centro de Documentação do Museu Municipal de Loulé. Mais tarde, Luís Guerreiro conseguiu adquirir num alfarrabista um exemplar que atualmente consta do fundo do Centro de Estudos Algarvios da Fundação Manuel Viegas Guerreiro.
Penso que esta experiência marca dois aspetos que gostaria de deixar registados. O primeiro, que a obra do médico Geraldino Brites[1] constitui hoje uma fonte documental incontornável para quem queira desenvolver estudos sobre a contemporaneidade do concelho de Loulé e do território algarvio. O segundo, porque esta situação transparece a procura constante pelo Saber, apanágio do Eng.º Luís Guerreiro que testemunha o seu empenho na reunião de material bibliográfico e que constitui a Biblioteca do Centro de Estudos Algarvios da Fundação Manuel Viegas Guerreiro.
                                                                                                                                                                                                              31.07.2020

[1] (n. Porto, 25.07.1882-f. Lisboa, 23.08.1941). Em 24 de Abril de 1908 vem residir para Loulé, tendo-se candidatado a um concurso para facultativo médico. Aqui trabalhou até 1910, tendo então desenvolvido estudos que foram publicados mais tarde:
Febres Infecciosas: notas sobre o concelho de Loulé. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1914, 433p.
Clima do Algarve: o inverno. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1916, 138p.
Publicou 236 publicações científicas, alguns livros e dezenas de artigos de opinião e de imprensa. 
Em 1927 foi preso na penitenciária de Lisboa, por suspeita de conspiração contra a ditadura militar. Em 1928 publicou artigos de opinião sobre o Ensino na revista Seara Nova.
Foi desenhador e fotógrafo, com mais de cem quadros, desenhos a carvão e fotografias do meio envolvente. 

LUÍSA MARTINS

Historiadora

Trabalha no Serviço de Investigação da Câmara Municipal de Loulé; doutorada em História / Presença portuguesa em África no século XIX, pela Universidade de Évora; é membro doutorado integrado no Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora; colabora no projeto Diaita da Universidade de Coimbra no âmbito da História Local e da História da Alimentação. No âmbito das suas funções na Câmara de Loulé está a desenvolver, em colaboração com o Museu Municipal de Loulé, o projeto de recuperação, conservação, documentação e divulgação do espólio africanista de Manuel Viegas Guerreiro.