O ALGARVE REVISITADO, por Filipe da Palma

CEA | TRIBUTO A LUÍS GUERREIRO
LIVRO: A MEMÓRIA E O AMOR
Luís Manuel Mendes Guerreiro, bibliófilo e homem de Cultura, reuniu centenas de livros e documentos ao longo da vida, constituindo uma colecção que se pode encontrar em Querença, aldeia natal do «engenheiro das letras», na expressão de Joaquim Magalhães. Este fundo, o Centro de Estudos Algarvios (CEA), está alojado na FMVG, instituição a que presidiu da primeira hora em que foi criada até à última da sua vida.
Se fosse vivo, Luís Guerreiro faria 60 anos a 4 de Setembro. Três anos após o seu falecimento (Agosto de 2017), a FMVG celebra o seu legado convidando várias personalidades ligadas à Cultura para elaborar um breve ensaio a partir de um livro, símbolo de uma das paixões maiores de Luís Guerreiro. Os textos serão publicados semanalmente, ao longo de Agosto e Setembro, no site da Fundação e partilhados no Facebook e newsletter FMVG. Mais tarde, será editada uma brochura com todos os artigos reunidos.
Esta é uma iniciativa que pretende valorizar o CEA e homenagear o seu fundador, com destaque para algumas das obras que compõem este acervo bibliográfico e documental.
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Dias, Jacinto Palma; Brissos, João - O Algarve revisitado, Lisboa : Festa do Livro, 1994.
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«É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.»
                                                                                                                                                                   José Saramago 
Após a leitura da lâmina em papel intitulada ESCLARECIMENTO - à semelhança da frase de Dante em A Divina Comédia: DEIXAI TODA ESPERANÇA, VÓS QUE ENTRAIS! - que acompanha o livro O ALGARVE REVISITADO (1994), de Jacinto Palma Dias e João Brissos, cada um é livre de continuar, após advertência, por sua inteligência e inquietação, para o imenso trabalho que se nos apresenta ao longo das 109 páginas.
Não se trata, de facto, de uma “obra para clientes de agência de viagens nem para algarvios embebedados pela miragem do turismo.” 
Dirige-se, sim, a quem queira perceber”, sendo que necessariamente terá de acompanhar a narrativa de Jacinto ao longo de uma linha cronológica que não segue a direito, mas ora avançando, ora infletindo, edificando um corpo de texto ao sabor das múltiplas ligações e leituras da existência de elementos vários que dão corpo singular ao território. 
Um bloco de páginas A4, impresso em papel reciclado, encadernado numa horizontalidade que remete quer para uma gráfica e tangível representação do território, quer para o elemento platibanda. Na capa, figura um motivo oculado que se por um lado poderá afastar do livro a contaminação de um discurso e uma historiografia clássica edificada por lugares comuns, por outro nos chama a mergulhar de cabeça numa viagem que teve seu início há milhares de anos.
Logo no início, na primeira página, as palavras arquitecturasupérfluodecorativodevaneio, e fantasia surgem como estrelas por onde tirar o azimute da Obra, constituindo-se numa forte possibilidade de navegação/leitura da mesma.
À semelhança do território algarvio – singular pela sua diversidade, constituindo-se em torrão policromático e multiforme – O ALGARVE REVISITADO é obra que utiliza num mesmo plano de importância informação em vários meios. Texto, fotografias, desenho, ilustração complementam-se, criando um corpo de texto consumível não de um trago, mas em pequenas e quase homeopáticas doses, à colherinha, portanto.
Escreve-se acerca do território, acerca do ser humano que desde cedo marcou presença em sua paisagem, por ela marcado, mas igualmente como agente modificador da mesma. Dos por cá nascidos e dos que cá chegaram ao longo da História, do encontro de culturas, da assimilação de elementos civilizacionais, cuja incorporação se faz hoje sentir nos ainda tangíveis testemunhos do passado.
De um remoto início pré-histórico - mas recuperado em arqueológicas narrativas - passando pela presença de tartessos, fenícios, gregos, cartagineses, celtas, romanos, visigodos, árabes, berberes, judeus; trazendo à luz do conhecimento eventos que de um ou outro modo, de forma impactante, mudaram por vezes  uma certa imutabilidade, como o foram a Expansão Marítima Portuguesa ou a Grande Depressão;  cruzando as informações de uma rica paleta de autores onde constam nomes como os de Orlando Ribeiro, Cristiana Bastos, Teresa Gamito, Fernando Galhano, Victor Gonçalves, Joaquim Romero Magalhães e muitos outros; invocando dezenas de obras onde não se ancora mas onde vai buscar linhas e pensamentos, dúvidas e certezas, Jacinto Palma Dias cria um texto denso e pleno de história.

Não se tratará de uma abordagem rememorativa do Passado no sentido de celebração de um ou mais momentos cristalizados no tempo e na história, mas e sim de perceber o intrincado fio da mesma, que se desenvolve num novelo que convoca múltiplos elementos de tantas e variadas áreas da acção e do saber humano.
O início tem lugar com o reconhecimento de identidade de um povo através da “cumplicidade das formas”, sendo esta o elemento invocado ao longo de toda esta revisitação como alicerce/ raiz estrutural da coluna que confere singularidade ao povo. É na arquitectura, com forte expressão em seus vários elementos, que recai grande parte da Obra, mas igualmente abarca os motivos pictóricos das embarcações de madeira, a agricultura, o pastoreio, a pesca, a literatura, a economia, a música, a dança, os conflitos sociais, o geometrismo, que marcam presença em tantos e variados suportes.
"Aquilo que no entanto se retém, após a viagem agora interrompida neste terminus livresco é a visão de uma cultura ritmada por alternâncias civilizacionais, ora verticalizando as imagens ora horizontalizando as mesmas, ora arredondando os espaços, preenchendo-os socialmente, ora esvaziando-os e precarizando os laços humanos, mas ritmos que de um modo ou de outro obedecem ao princípio de que algures um raio luminoso, fulminante, constitui subitamente um atributo do olhar, guidando-o para a esfera superior como órgão do poder, para mais além e muito para além do verbo, o que para quem tem estas gentes do sul por gentes de permanentes algarviadas constitui -sem dúvida- surpresa grande, porque evidencia que apenas pelo silêncio se assoma." (in O Algarve revisitado)

Uma revisitação que se metamorfoseia em descoberta. 

 

FILIPE DA PALMA

1971, Algarve 
Fotógrafo