PORTIMÃO, por Maria João Duarte

CEA | TRIBUTO A LUÍS GUERREIRO
LIVRO: A MEMÓRIA E O AMOR
Luís Manuel Mendes Guerreiro, bibliófilo e homem de Cultura, reuniu centenas de livros ao longo da vida, constituindo uma colecção que se pode encontrar em Querença, aldeia natal do «engenheiro das letras», na expressão de Joaquim Magalhães. Este fundo, o Centro de Estudos Algarvios (CEA), está alojado na FMVG, instituição a que presidiu da primeira hora em que foi criada até à última da sua vida.
Se fosse vivo, Luís Guerreiro faria 60 anos a 4 de Setembro. Três anos após o seu falecimento (Agosto de 2017), a FMVG celebra o seu legado convidando várias personalidades ligadas à Cultura para elaborar um breve ensaio a partir de um livro, símbolo de uma das paixões maiores de Luís Guerreiro. Os textos serão publicados semanalmente, ao longo de Agosto e Setembro, no site da Fundação e partilhados no Facebook e newsletter FMVG. Mais tarde, será editada uma brochura com todos os artigos reunidos.
Esta é uma iniciativa que pretende valorizar o CEA e homenagear o seu fundador, com destaque para algumas das obras que compõem este acervo bibliográfico.

 

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Nunes, Joaquim António - Portimão, Lisboa: Casa do Algarve, 1956.


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PORTIMÃO, Joaquim António Nunes

«Um trabalho imprescindível para o estudo de Portimão e do Algarve», por MARIA JOÃO DUARTE


Com a finalidade de valorizar o acervo do Centro de Estudos Algarvios, recebi da Fundação Manuel Viegas Guerreiro um desafio para que fizesse um ensaio, comentando o livro Portimão de Joaquim António  Nunes. Aceitei o repto, feliz por contribuir para a continuação do trabalho do Engenheiro Luís Guerreiro na preservação da história e memória algarvia, mas também porque nos meus estudos eu já me debruçara sobre o regionalismo algarvio, tema muito grato ao nosso Engenheiro; estudara a sua génese e evolução no século XX e, por essas andanças, cruzara-me com Portimão e com o seu autor, Joaquim António Nunes, já em idade muito avançada, mas uma lucidez e a memória excelentes!
Descobri-o em Lisboa, num prédio às Amoreiras, e lá fui eu, munida de gravador, entrevistar um dos Grandes do regionalismo algarvio. Surpreendeu-me um homem franzino, de pequena estatura, que se agigantava quando falava de Portimão, do Algarve e da sua "Casa".
Joaquim António  Nunes nasceu em 1905, em Vila Nova de Portimão, filho de quinteiros no Morgado do Reguengo. Os trabalhos agrícolas ocuparam-no e só começou a aprender as letras aos 13 anos. Fez a segunda classe e iniciou a aprendizagem do ofício de torneiro mecânico na Litografia de Júdice Fialho, o maior industrial portimonense. Nunes, desde cedo, demonstrou grande interesse pelo estudo. Os jornais operários e os livros das associações foram para ele uma verdadeira escola. Este autodidata leu todos os clássicos que marcaram a sua geração.
Nos anos 30, o Algarve atravessava uma grave crise de falta de trabalho, com as fábricas a laborar somente dois ou três dias por semana. A contestação operária fez-se sentir e os companheiros de Nunes foram presos pela PVDE em finais de 1933. Ele escapou a essa leva, mas temia não escapar à seguinte.
Entretanto, o seu irmão arranjou-lhe trabalho em Lisboa e ele mudou-se, em 1934, para a capital, já casado e com dois filhos. Gorada a primeira oferta de trabalho, Nunes concorreu às oficinas da Administração do Porto de Lisboa, tendo sido admitido. Terminou a instrução primária e seguiu o ensino industrial nas Escolas Fonseca Benavides e Marquês de Pombal. Pretendia fazer o Curso de Engenheiro Auxiliar, que não concluiu. Abandonados os estudos, iniciou a sua colaboração nos jornais do Algarve.
Nunes continuou a exercer funções na Administração do Porto de Lisboa, onde fez a sua carreira ao longo de 40 anos de serviço. Foi chefe dos Serviços de Depósitos e o primeiro a organizar a sua Casa do Pessoal. "O Nunes do Depósito" era conhecido de todos.
Em todo o processo da actividade associativa regionalista algarvia, destacara-se Mateus Martins Moreno, um algarvio de Faro. A ele se deveu a concretização do desejo mais antigo dos algarvios, o estabelecimento dum centro na capital: a Casa do Algarve, em 1930.
Joaquim António  Nunes teve em Moreno um bom mestre e seguiu-lhe os passos. Dominado pela nostalgia do Algarve, Nunes desenvolveu um intenso trabalho no associativismo regionalista. Pensou em ressurgir a Casa do Algarve, que declinara, encerrando paulatinamente a sua actividade no início da década de 40. Nunes foi a figura de proa da refundação da Casa do Algarve; foi o grande entusiasta e organizador; fez a angariação dos algarvios, através da sua inscrição em listas espalhadas por toda a capital, a fim de reunir elementos para nomear uma comissão organizadora, que tomou o nome de Comissão Pró-Organização da Casa do Algarve. Essa comissão debateu as causas que tinham levado à decadência da primeira Casa do Algarve, concluindo-se que se dera uma má prova de regionalismo e de associativismo dos algarvios. Nunes trouxe à causa os jornalistas, os escritores, os políticos e todos os algarvios que podiam, de algum modo, ajudar à sua concretização.
Nunes iniciou a sua actividade literária ao mesmo tempo que a regionalista e a sua obra constitui uma fonte fundamental para a história e evolução do regionalismo algarvio. Em 1956, Nunes publicou Portimão, o seu primeiro livro, uma elucidativa monografia de Portimão, a sua terra natal. O livro integrou a colecção "Estudos algarvios" da Casa do Algarve e dá-nos um retrato muito completo de Portimão, dos seus lugares, da sua história, da sua cultura, da sua economia e ainda dos homens cuja vida animaram essa terra. É um trabalho imprescindível para o estudo de Portimão e do Algarve, acompanhado de gráficos, tabelas e mapas, feito com grande rigor histórico.
Quando deu por terminada a tarefa de ressurgimento da Casa do Algarve, que criou a partir do zero, Nunes publicou o seu sexto livro "Regionalismo, Cultura e Turismo" (1989), onde nos retrata o movimento regionalista algarvio. Nunes publicara anteriormente Jornais, Homens e Factos de Portimão (1962), onde fez uma inventariação e descrição da imprensa portimonense e dos seus mentores, jornalistas e tipografias. A admiração, uma verdadeira adoração, por Manuel Teixeira Gomes fê-lo publicar o ensaio Da Vida e da Obra de Teixeira Gomes (1976). E são ainda da sua lavra Imagens de Lisboa (1976); Crónicas Intencionais (1991) e Temas do meu Rosário (s.d.).
A sua colaboração encontra-se dispersa em muitos jornais de Lisboa, do Porto e Monção e na imprensa regional algarvia. Nunes foi também director e editor de Algarve, o boletim informativo da Casa do Algarve, em Lisboa.
A Casa do Algarve teve sempre instalações "provisórias", deambulando por vários imóveis de Lisboa. Apesar disso, a instituição atravessou tempos áureos, com Joaquim Nunes à frente da sua direcção, promovendo uma vida social e cultural intensa em benefício dos algarvios da capital: exposições, palestras, visitas, comemorações de vultos algarvios e de efemérides etc. Nunes deu vida à "Casa", granjeando-lhe um prestígio superior às suas congéneres.
Por isso, a "Casa" também teve um grande papel no desenvolvimento do Algarve, pois atuou como um verdadeiro lobby para a fundação do Conservatório Regional, do Aeroporto de Faro e da Universidade do Algarve. Como Presidente da Casa do Algarve, Nunes realizou o II Congresso Regional Algarvio, em que se identificaram as necessidades da região e as respectivas soluções.
O Estado Novo percebera a força regionalista, pelo que aceitara a existência da Casa do Algarve, tentando, reduzir a sua capacidade interventiva e reivindicativa através da sua normalização e ritualização de cerimónias nacionalistas, onde a região funcionava como uma "mini pátria". Na cortesia das instituições permitidas pela ditadura, o regionalismo foi legitimado, em contexto nacionalista, mas simultaneamente despojado da sua força política e reduzido ao nível simbólico e a pacíficas actividades artísticas, culturais e sociais.
No entanto, apesar de a Casa do Algarve se subordinar ao ideário do Estado Novo, a associação deu cobertura a muitos oposicionistas algarvios e divulgou o trabalho de muitos seus associados inimigos figadais do regime ditatorial. Segundo Nunes, a PIDE vigiava atentamente as reuniões da associação regionalista, relatando o facto de muitos dos seus sócios serem "subversivos" e os cargos directivos estarem pejados de oposicionistas.
Nunes adquiriu larga experiência na direcção da Casa do Algarve, estando à frente de todos os combates pelo Algarve, durante 36 anos. Só quando, em 1981, foi atribuído à "Casa do Algarve", o Estatuto de Utilidade Pública, por que ele tanto lutara, a sua luta regionalista findou. Nunes foi nomeado Presidente Honorário, mantendo-se até à sua morte como o sócio n.º 1 da Casa do Algarve.
Por incúria e para desgraça dos algarvios, com ele morreu a sua e a nossa "Casa".
                                                                                                                                                    MJRD, Julho 2020

MARIA JOÃO DUARTE, HISTORIADORA

[biografia acessível ao clicar em «historiadora»]