SAUDADES DE LUÍS GUERREIRO, Por António Ventura

CEA | TRIBUTO A LUÍS GUERREIRO

LIVRO: A MEMÓRIA E O AMOR 

Luís Manuel Mendes Guerreiro, bibliófilo e homem de Cultura, reuniu centenas de livros e documentos ao longo da vida, constituindo uma colecção que se pode encontrar em Querença, aldeia natal do «engenheiro das letras», na expressão de Joaquim Magalhães. Este fundo, o Centro de Estudos Algarvios (CEA), está alojado na FMVG, instituição a que presidiu da primeira hora em que foi criada até à última da sua vida.
Se fosse vivo, Luís Guerreiro faria 60 anos a 4 de Setembro. Três anos após o seu falecimento (Agosto de 2017), a FMVG celebra o seu legado convidando várias personalidades ligadas à Cultura para elaborar um breve ensaio a partir de um livro, símbolo de uma das paixões maiores de Luís Guerreiro. Os textos serão publicados semanalmente, ao longo de Agosto e Setembro, no site da Fundação e partilhados no Facebook e newsletter FMVG. Mais tarde, será editada uma brochura com todos os artigos reunidos.
Esta é uma iniciativa que pretende valorizar o CEA e homenagear o seu fundador, com destaque para algumas das obras que compõem este acervo bibliográfico e documental.

 

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Ventura, António - 120 anos de Maçonaria no Algarve 1816-1936. Loulé : Sul, Sol e Sal, 2019.

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SAUDADES DE LUÍS GUERREIRO

Por ANTÓNIO VENTURA

O meu livro 120 Anos de Maçonaria no Algarve 1816-1936, publicado em 2019 pela editora Sul Sol Sal, começa com estas palavras: «Este livro começou a ser esboçado há anos atrás, numa conversa com o engenheiro Luís Guerreiro, que entusiasticamente acarinhou o projecto. Infelizmente, as Parcas não o deixaram ver a sua concretização». De facto, ele ficaria muito feliz se tivesse tido a oportunidade folheado o livro, embora já conhecesse parte dos seu conteúdo que ainda desvendei em diversas palestras e conferências que fiz em várias localidades algarvias.
Conheci Luís Guerreiro em Julho de 2007, em Loulé, no Curso Livre de História Contemporânea, «O Algarve no contexto da II Guerra Mundial», onde proferi a conferência «Os Anos 40 à luz dos memorialistas algarvios». Diga-se que o contacto fora estalecido através da minha antiga aluna, amiga e colega Maria João Duarte. Fiquei de imediato muito bem impressionado pela forma dinâmica e empenhada como Luís Guerreiro olhava e vivia a História em geral e da sua região em particular, embora não tivesse uma formação naquela área, o que, aliás nunca foi condição indispensável para fazer História.
Recordemos que alguns grandes historiadores portugueses como Jaime Cortesão, Rainaldo dos Santos e mesmo Leite de Vasconcelos, eram médicos, e que Luís Albuquerque era licenciado em ciências matemática e em engenharia geográfica, mas esse facto não os impediu de se terem distinguido em campos para os quais não tinham uma formação inicial. Ora, Luís Guerreiro, se não frequentou cadeiras de História na universidade, soube compensar essa eventual carência com leituras, com o estudo e o amor à sua pequena pátria de Loulé em particular e do Algarve em geral.
O engenheiro Luís Guerreiro foi um «amador» da História, no sentido etimológico da palavra. Gosto muito de a usar no seu verdadeiro sentido: amador é aquele que ama; e Luís Guerreiro amava profundamente a sua região e manifestou esse amor por uma dedicação sem limites, pela recolha e inventariação de documentos e outras fontes em especial da época contemporânea – mas não só – e produzindo diversos estudos que são modelares a todos os níveis. Olhou sempre com especial interesse para a I República – época que também tenho estudado - e, por isso, tivemos diversos contactos mesmo antes das comemorações do centenário da proclamação da República. A seu convite, lá fui de novo até terras algarvias, a 15 de Outubro de 2008, para outra conferência, em Loulé, na alcaidaria do castelo sobre «A Maçonaria em Loulé».
Comecei nessa época a estudar a Maçonaria no Algarve, com um levantamento das fontes maçónicas disponíveis, mas que tinha que ser complementado com outras informações, biográficas, que só a nível local se podiam descortinar. Importava não só fazer o levantamento das estruturas maçónicas algarvias, mas também dos homens e mulheres que as integraram ali ou noutros pontos do território nacional. A conclusão do livro foi sucessivamente adiada por várias razões, a principal das quais foram as solicitações variadas e os compromissos com projectos mais urgentes, alguns até relacionados com efemérides, como o centenário da proclamação da República em 2010. Luís Guerreiro insistia sempre comigo, para que o terminasse e publicasse o trabalho e forneceu-me informações preciosas tanto biográficas como iconográficas, não só referentes a Loulé, mas também a outras localidades algarvias. Recordo a alegria e a surpresa que manifestou ao ter encontrado e salvo um conjunto de documentos sobre o Partido Republicano Evolucionista em Loulé…
Voltei por diversas vezes àquela cidade para participar em iniciativas de índole cultural. Uma delas incidiu sobre a figura do almirante Mendes Cabeçadas, com uma belíssima exposição e a publicação do volume colectivo José Mendes Cabeçadas Júnior e a Primeira República no Algarve, que ele coordenou e no qual colaborei. Encontrámo-nos em variadíssimas ocasiões, sempre no quadro de interesses comuns, vários, e com os quais nos identificámos. Finalmente, Luís Guerreiro foi a Portalegre – a minha terra natal – como há muito pretendia. Foi a última vez que o vi.
Estas palavras pretendem ser uma modesta homenagem ao Homem, ao Estudioso e acima de tudo ao Amigo, com quem partilhava o apego aos ideais da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade.

 

                                                                                                             António Ventura
                                                                                                             Professor catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa
 
ANTÓNIO VENTURA
HISTORIADOR
Doutor em Letras (Histórias Contemporânea), com o título de Agregado. Professor catedrático do Departamento de História da Faculdade de Letras de Lisboa. Foi Vice-Presidente do Conselho Científico, Director do Departamento de História, do Centro de História da Universidade de Lisboa, da Área de História da mesma Faculdade e da Revista da Faculdade de Letras.
Académico de Número da Academia Portuguesa da História (Cadeira nº 5). Sócio Efectivo da Academia de Marinha (Classe de História Marítima).
É autor de uma vasta bibliografia sobre História Contemporânea.